Memórias de Adriano ou o estudo da natureza humana

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Há uns tempos, fiz uma apanhado das principais razões que me levam a considerar um livro bom:
– depois de o terminar, ter vontade de o reler;
– sentir a presença do autor na história (o escritor usar a narrativa como meio para filosofar);
– ser surpreendido no final (inclui querer voltar a ler o livro para encontrar aquelas pistas sobre o fim que só na releitura me parecem óbvias);
– ser enganado pelo narrador quanto às personagens (exemplo: o protagonista revelar-se afinal alguém desprezível após convencer-me que era amável);
– e ser escrito com um estilo prodigioso, embelezado por originais metáforas, inesperadas figuras de linguagem, sensações e descrições.

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, preenche todos estes requisitos. Talvez o final não seja o mais surpreendente que li, mas não era isso que se pedia neste tipo de obra. O que é certo é que o livro me prendeu dias a fio. Não consegui pensar noutra coisa enquanto o lia.

Só assim Memórias de Adriano poderá ser lido: com total comprometimento. A forma como está escrito assim nos obriga: cada linha é uma ideia, cada parágrafo um tratado filosófico, cada capítulo uma obra-prima. Não há espaço ou tempo para pensamentos desviantes na companhia Memórias de Adriano. A leitura é lenta, muito lenta; e se a apressarmos os pontos de vista expostos por Adriano/Yourcenar vão passar-nos ao lado sem que consigamos sorver o delicioso néctar escondido em cada frase.

Adriano foi um dos “cinco bons” imperadores romanos e governou no primeiro século da era comum. Yourcenar, cultíssima em matérias clássicas, faz uma espécie de autobiografia ficcionada de Adriano, num registo epistolar e confessional. O imperador, doente e no leito da morte, escreve ao filho-adotivo, Marco Aurélio, instruindo-o para se tornar num homem melhor e preparando-o para o suceder no trono. Entretanto, conta-lhe a história da sua atribulada vida.

As memórias envolvem grandes temas, como o poder e a fragilidade, o amor e o esquecimento, a ambição e o medo, a vida e a morte; mas também a viagem, o sono ou os prazeres humanos. Foi na apreciação filosófica destas e doutras matérias, mais do que na história em si, que Yourcenar me agarrou.

A fórmula certeira deste livro é referida no posfácio pela própria autora: “Um pé na erudição, outro na magia, ou, mais exatamente e sem metáfora, nesta magia simpática que consiste em nos transportarmos em pensamento ao interior de alguém”.

Adriano é uma janela para o interior da nossa essência, e qualquer que fosse a personagem e a época histórica escolhidas para o fazer, tenho a certeza de que Yourcenar acertaria em cheio na missão que se propôs de estudar a natureza humana.

São 250 páginas de puro prazer, expurgadas do supérfluo e onde a escritora francesa aflora “somente o que há de mais essencial em nós: as emoções dos sentidos, as operações do espírito”.

Perfeito. Assino por baixo. Quero mais.

E já vêm a caminho mais livros de Marguerite Yourcenar…

Memórias de Adriano
Marguerite Yourcenar
Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★★
A reler: Sim
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