O sussurro da primeira memória

Ler

Dividimos as nossas vidas por secções. Há quem as conte por décadas, relacionamentos, empregos ou viagens. Eu conto a minha pelas casas em que morei. Pelas minhas contas já vou na vigésima. A primeira de que me lembro é nas traseiras de um restaurante, nos arredores de Tomar. Esse restaurante guarda a minha primeira memória.

Resgatada do fundo do baú, essa memória sussurra-me um final de tarde a meia-luz, pintado pelos tons pastel do primeiro dia de outono. Era o dia do meu quinto aniversário e acabava de receber a minha primeira bicicleta. Era vermelha e amarela. Levei-a logo para a rua, para me juntar aos meus irmãos, que também haviam recebido cada um a sua bicicleta.

O primeiro presente que me lembro de receber. A minha primeira memória. Ainda bem que é uma feliz. Serão todas as primeiras memórias felizes?

A memória pode ser traiçoeira. Frequentemente mentimos a nós próprios. Inventamos memórias, ou seja, inventamo-nos, já que o que somos se não o somatório das nossas memórias? A nossa identidade depende assim de um arquivo falível, programado para esquecer o mau, adoçar o assim-assim e fabricar o ótimo.

Será o nosso precioso tesouro de recordações de infância uma fraude?

Terá sido a minha primeira memória fabricada para ser mais doce do que realmente foi?

O poder da fotografia: tenho a sorte de guardar uma fotografia daquela tarde em que recebi uma bicicleta vermelha e amarela. A imagem corrobora os fragmentos de memória que tão carinhosamente guardei no mais profundo do meu ser.

Mas… Existirá a minha primeira memória apenas porque olho para esta fotografia? Não será também a fotografia um objeto adulterador do nosso catálogo de recordações?

Felizmente, a máquina que vive na nossa cabeça é incomparavelmente superior à máquina fotográfica. Não regista apenas um fugaz instante, mas tudo o que vive a montante e a jusante deste: a alegria transbordante que senti ao receber a bicicleta, as primeiras pedaladas ainda dentro de casa, as corridas no terreno ao lado do restaurante…

A minha primeira memória é mais do que uma simples fotografia. Vive além dela.

Apesar disso, ainda bem que guardo essa fotografia. Para que o sussurro da minha primeira memória se alimente dela e se materialize em luz, formas e cores. Vermelhas e amarelas. Como as da minha bicicleta nova.

Submit a comment

O seu endereço de email não será publicado.