As minhas leituras durante o confinamento (não-ficção)

Ler

A trabalhar a partir de casa, com muitas horas poupadas em deslocações para o escritório e sem filhos para ocupar o meu tempo, aproveitei os dias de confinamento para ler o mais que pude, sobretudo livros que estavam há muito na minha lista de desejos.

Partilho convosco os livros que me fizeram companhia nestes mais de 70 dias em casa. Começo pela não-ficção. A ficção fica para o próximo post.

Ociosas Reflexões de um Ocioso

Jerome K. Jerome
Antígona

No prefácio de Ociosas Reflexões de um Ocioso, Jerome K. Jerome garante, com excessiva humildade, que “este livro não seria capaz de animar um morto”. Não podia estar mais longe da verdade. Carregado de humor, este conjunto de crónicas sobre temas tão diversos como a vaidade, os bebés, a timidez, o estado do tempo ou a luta pela vida, é uma espécie de manual dos bons costumes para inveterados ociosos, como é o meu caso.

De escrita leve mas experiente, custa a crer que Jerome tenha dado à estampa estes textos com apenas 27 anos e em 1886. Encontrei no livro reminiscências de Walden, de Henry David Thoreau, escrito umas décadas antes, mais uma razão por que tanto gostei destas Ociosas Reflexões.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★
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A Grande História dos Mitos Gregos

Stephen Fry
Clube do Autor

Os gregos foram o primeiro povo a elaborar narrativas coerentes sobre os seus deuses, monstros e heróis, tentando através deles encontrar respostas para mistérios como a criação do mundo e da Humanidade. Ao contrário de outras mitologias religiosas, os gregos não rastejavam perante os seus deuses. Sabiam que deviam ser venerados, mas acreditavam que os homens eram seus iguais: com caprichos, crueldades, belezas, loucura e injustiças.

São essas a histórias que Stephen Fry, conhecido humorista inglês, se propõe contar neste livro que figurará por muitos anos na minha prateleira de não-ficção para consulta permanente. São fascinantes as histórias de figuras que pululam o nosso imaginário, como as de Édipo, Sísifo, Narciso, Midas ou Ícaro; assim como a explicação da origem de tantas das nossas palavras.

Alguns exemplos de nomes de divindades gregas que usamos diariamente sem nos apercebermos da sua origem: geriátrico (Geras), hipnose (Hipnos), onírico (Oniros), fantasia (Fantasos), oceano (Oceano) e erotismo (Eros). Depois há as musas, as ninfas, as moiras, os centauros, os gigantes, os ciclopes… e tantos outros.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★★
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A Bíblia (Os Quatro Evangelhos)

Tradução de Frederico Lourenço
Quetzal

(Classificar a Bíblia como ficção ou não-ficção é um caminho que não enveredarei. Optei por incluí-la na não-ficção visto o caráter pedagógico deste tradução específica de Frederico Lourenço).

Estou a ler as magníficas traduções do Novo Testamento do Frederico Lourenço, um intelectual “à moda antiga”, proficiente em grego e latim. Para já li o Volume I, que corresponde aos quatro evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Estes quatro livros quebram a tradição literária vigente na altura, que relatava feitos heróicos de reis e guerreiros (ver Antigo Testamento).

Uma das grandes novidades aqui é que os protagonistas, além de Jesus, são os pobres, os leprosos, os cegos, as prostitutas, os malucos e outros renegados, personagens normais numa escrita “normal” feita para chegar a todos. Um dos pontos altos deste Volume I são as parábolas. Os seus títulos já ressoavam na minha mente, mas desconhecia as histórias em si, e foi um deleite perceber mergulhar a fundo em parábolas como as do semeador, do bom samaritano ou do trigo e do joio. Um livro obrigatório.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★★★
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Marca de Água

Joseph Brodsky
Relógio D’Água (edição lida: Dom Quixote)

Depois de ter devorado dezenas de livros de viagem em 2019, este ano virei-me para outros géneros. Marca de Água foi uma das poucas exceções, e ainda bem que cometi esse desvio. O livro de Joseph Brodsky, cuja foco é a cidade de Veneza, é pura poesia em forma de prosa (o autor é sobretudo conhecido como poeta), mesclando ficção e não-ficção num quase solilóquio confessional que me agarrou pelos colarinhos da primeira à última página.

Um pequeno exemplo apenas: “De manhã a luz encosta-se à nossa janela e, depois de nos abrir os olhos como quem abrisse conchas, corre à nossa frente, dedilhando com os seus longos raios – qual rapazinho apressado a percorrer com um pau as grades de ferro de um parque ou jardim”.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★★
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Como um Romance

Daniel Pennac
Edições Asa (Pequenos Prazeres) (esgotado)

Estes livrinhos das Edições Asa são mesmo pequenos prazeres (comprem todos os de Luis Sepúlveda que encontrarem em segunda mão; custam geralmente 3 ou 4 euros). Este do Daniel Pennac é surpreendentemente fácil de encontrar em alfarrabistas e lojas de artigos em segunda mão e é uma pérola a preço de pechisbeque.

O primeiro capítulo (quase um terço do livro) é prescindível se o que procuram são dicas de escrita, mas aconselho a não o saltarem, para que não vos escape a forma imaginativa como o francês usa técnicas de ficção para construir um livro de não-ficção.

A secção mais célebre deste livro a lista Pennac dos 10 Direitos do Leitor. São eles: o direito de não ler, o direito de saltar páginas, o direito de não acabar um livro, o direito de reler, o direito de ler não importa o quê, o direito de amar os “heróis” dos romances, o direito de ler não importa onde, o direito de saltar de livro em livro, o direito de ler em voz alta e o direito de não falar do que se leu.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★


O Meu Chapéu Cinzento

Olivier Rolin
Edições Asa (Pequenos Prazeres) (esgotado)

Mais um pequeno prazer a que não resisti. Apesar de também esgotado nas livrarias, encontra-se facilmente em segunda mão pelo preço de uma caneca de cerveja. O subtítulo Pequenas Geografias denuncia que esta obra de Rolin encaixa no género de escrita de viagens.

Confesso apaixonado por Portugal, o capítulo que descreve a passagem do autor pelos Açores é um hino ao género. Considerei inconsistentes os outros fragmentos que relatam viagens por diversas latitudes: uns são bons, outros confesso que não me deixaram marca. O primeiro terço do livro, sobre o prazer da leitura, foi o que mais me prendeu. Em conclusão, O Meu Chapéu Cinzento não figurará no meu Olimpo dos grandes livros de viagem, mas vale a pena lê-lo tendo em conta que é quase dado.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★


A Fé de um Escritor

Joyce Carol Oates
Casa das Letras (esgotado)

Não conhecia esta escritora norte-americana até assistir a uma masterclass sua na internet. Mal descobri que tinha publicado um livro sobre a escrita corri a comprá-lo. Infelizmente, a edição portuguesa está esgotada, mas consegui encontrar uma cópia em segunda mão.

Em “A Fé de Um Escritor”, além de episódios da sua infância que a marcaram enquanto leitora, e um manual das principais técnicas de escrita, Oates revela particularidades que extravasam a escrita (mas que, diz ela, a influenciam), como o seu hábito de correr para espicaçar a imaginação: “Correr! Se existe atividade mais prazenteira, mais estimulante, mais propícia a alimentar o exercício da imaginação, não me ocorre pensar que outra poderá ser. Ao correr, a mente voa juntamente com o corpo; a misteriosa eflorescência da linguagem parece pulsar do cérebro”.

O capítulo A Um Jovem Escritor é que condensa o “sumo” dos ensinamentos de Oates e, por isso, o mais massacrado pelo meu lápis deste livro que já merecia uma reedição.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★★


Cartas a um Jovem Romancista

Mario Vargas Llosa
Publicações Dom Quixote (esgotado)

O título foi provavelmente buscar inspiração ao Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke. O livro é uma espécie de manual de escrita de Vargas Llosa. O destinatário das missivas, ao contrário de Rilke, não é um alguém específico, antes uma interpelação direta ao leitor, a nós.

A primeira metade do livro é mais técnica, centrando-se em temáticas como o estilo, o narrador, o espaço e o tempo. É nesta metade que vivem os aforismos mais conhecidos do escritor peruano no que respeita à arte de bem escrever, como este: “A vontade de criar nasce da insatisfação perante a vida”, ou este: “O processo de criação narrativa é a transformação do demónio em tema”.

A segunda parte das Cartas é mais autobiográfica e menos estimulante; ainda assim, vale a pena a leitura, até porque o livro tem pouco mais de 100 páginas. Infelizmente, está esgotado, e não foi tarefa fácil encontrar um exemplar no mercado alfarrabista.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★★


O Zen e a Arte da Escrita

Ray Bradbury
Cavalo de Ferro

Dos cinco livros que abordam a arte da escrita que li durante o confinamento, este é porventura o mais ligeiro e fácil de ler. Editado recentemente pela Cavalo de Ferro, O Zen e Arte da Escrita é um compêndio de textos de Ray Bradbury (conhecido pela célebre distopia Fahrenheit 451) escritos ao longo de 30 anos, e que inclui ensaios como A Alegria de Escrever, Como Alimentar e não Perder a Musa ou Sobre a Criatividade. O título do livro remete-nos para a abordagem de Bradbury em relação à sua escrita, assente numa tríade de princípios-base: Trabalho, Descontração e Não pensar. As dicas abundam neste livro essencial para quem procura escrever mais e melhor.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★
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A Arte do Romance

Milan Kundera
Dom Quixote

“O romance está atulhado pela técnica, pelas convenções que atuam em vez do autor: expor uma personagem, descrever um ambiente, introduzir a ação numa situação histórica, encher o tempo de vida das personagens com episódios inúteis”. Por aqui se percebe que, ao contrário dos outros livros aqui recomendados sobre a escrita, A Arte do Romance não se foca em questões técnicas. Pelo contrário: o imperativo de Kundera é precisamente o de libertar o romance de automatismos e libertá-lo dos excessos do realismo. Temas como o esquecimento do ser, o tempo e a morte são a espinha dorsal da escrita de Kundera, tanto neste livro como na sua ficção. Aliás, sugiro a leitura deste A Arte do Romance apenas a quem já conheça alguma da sua obra, nomeadamente a Insustentável Leveza do Ser, caso contrário, muito do seu conteúdo ficará perdido sem referências.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★★
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O Meu Suicídio

Henri Roorda
Livraria Snob

Trouxe comigo este diminuto livro depois da inauguração do novo espaço da livraria Snob. Trata-se de uma edição “da casa”, a décima incursão no mercado da publicação da Snob. O mote é simples mas perturbador: num dia de novembro de 1925, Henri Roorda despede-se dos amigos no café, vai para casa, escreve as últimas páginas deste livro, bebe meia garrafa de vinho do Porto e dispara uma bala no coração. Sim, este O Meu Suicídio está mesmo na categoria de não-ficção. Apesar da soturnidade da premissa, a verdade é que, grosso modo, o tom de O Meu Suicídio não é depressivo (Roorda diz mesmo que ama apaixonadamente a vida). Só assim se explica que eu tenha chegado sem desistir às últimas páginas, essas sim, não recomendáveis a espíritos mais sensíveis.

Avaliação do Filho de de Mil Histórias: ★★★
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