5 benefícios que encontrei na leitura

Ler

“Quem não lê, aos 70 anos terá vivido uma vida. Quem lê, terá vivido cinco mil anos” – Umberto Eco

Não é difícil listar vários motivos por que leio, mas centro-me em apenas cinco benefícios que a leitura me traz:

1: Compreender melhor os outros (e a mim)

O académico Harold Bloom falava no estado de “alteridade” quando lemos, ou seja, colocarmo-nos na pele do outro, vivermos o que narradores e protagonistas vivem e, com isso, sermos menos permissivos ao preconceito, ao diferente. Com os livros percebemos não só melhor o outro como somos o outro.

Os livros são, assim, uma forma de escaparmos à nossa limitada existência, funcionam como uma espécie de máquina do tempo (e do espaço): vários tempos, espaços, vidas. São também as mais ilustres marcas dos pensamentos da Humanidade, testemunhos da grandeza da mente humana, tatuagens no tempo que não podem ser apagadas.

Por outro lado, a leitura possibilita, indubitavelmente, um maior autoconhecimento. Kafka dizia que um livro deve atingir-nos como um soco, abalar com violência o leitor e a sua habitual visão das coisas. “Se o livro que lemos não nos acorda, como um murro na cabeça, para que o lemos?”, perguntava. O livro, como outras formas de arte, é portanto um despertador de consciências e muitos socos me têm sido infligidos. As mazelas apenas me tornam mais forte.

2: Aprender todos os dias

Na minha ignorância, achava que era sobretudo a não-ficção que me tinha coisas a ensinar. Naturalmente, estava enganado. Depois de anos a ler quase exclusivamente não-ficção, acumulando factos como quem coleciona moedas antigas, (re)descobri a ficção − romances, novelas, contos, poemas – e o poder de uma boa história. Contar (e ler) uma história é a essência do ser humano.

Não obstante, continuo a fazer uma visita à não-ficção de quando em vez − o primeiro amor nunca se esquece. É que, como lembrava Henry David Thoreau, “os livros são a riqueza do mundo entesourada e o justo legado de gerações e nações”, e faço questão de fruir desse tesouro sempre que posso. É extraordinário como os pensamentos do passado continuam a fazer sentido hoje, mesmo milénios separando-nos: basta falar dos filósofos gregos e de como as suas ideias ainda ressoam na atualidade.

Vários autores contemporâneos continuam a enriquecer-me. Um nome que me vem imediatamente à mente quando penso em não-ficção é Bill Bryson além, claro, dos grandes mestres da literatura de viagem, que leio há vários anos: Theroux, Chatwin, Morris, Naipaul, etc. Os livros fazem-me viajar sem sair do sofá, percorrer as mais recônditas regiões do mundo enquanto estou sentado. O que pedir mais?

3: Manter-me desperto

Dizia Herman Hesse: “Quem lê apenas por passatempo, por muito numerosas e belas que sejam as suas leituras irá esquecê-las rapidamente e dará por si pobre como dantes.”

O papel central da literatura não é a de nos distrair ou adormecer. É precisamente o oposto: é fazer-nos acordar, aprender, refletir. Ler um livro exige presença. A leitura deve concentrar-nos, não ensonar-nos. Não pode ser comparado com o ato de ver um filme ou ouvir música, em que o a nossa atenção pode divagar livremente.

“Quem, pelo contrário, lê os livros como se ouvem os amigos, verá como esses revelarão os seus tesouros e se tornarão para ele uma posse íntima. (…) Irá alegrá-lo e consolá-lo, como somente os amigos sabem fazer”, conclui Hesse, o que me leva ao próximo ponto.

4: Ter um amigo sempre por perto

À medida que avançamos pela idade adulta, o tempo que passamos com amigos é inversamente proporcional ao tempo que acumulamos a trabalhar (tanto no escritório como em casa), e o foco vai passando da socialização entre amigos para o tempo em família. Esta realidade é tanto mais assim quanto mais urbana for a nossa geografia.

Volto a Harold Bloom: “Lemos não só porque não conseguimos conhecer tantas pessoas quanto desejaríamos, mas também porque a amizade é tão vulnerável e tão suscetível de diminuir ou de desaparecer, vencida pelo espaço, pelo tempo.”

A amizade vencida pelo espaço e pelo tempo (tempo no dia a dia, ou seja, a falta dele; mas também tempo linear, à medida que a separação física nos vai afastando uns dos outros). Uma coisa aprendi a viajar: quanto maior o nível de vida e conforto de uma sociedade, maiores os seus índices de solidão. Basta olhar à nossa volta.

Nesse sentido, os livros estão na linha da frente no combate à solidão, como conclui Bloom: “ler bem é um dos grandes prazeres que a solidão nos pode proporcionar, porque é, pelo menos segundo a minha experiência, o prazer mais regenerador.

5: Afastar-me da ansiedade e da melancolia

Outras vítimas da leitura são a ansiedade e a melancolia. Na obra O Prazer da Leitura, Proust teorizava sobre o livro enquanto panaceia do negrume da alma: “Há alguns casos patológicos, por assim dizer, de depressão espiritual, em que a leitura se pode tornar uma espécie de disciplina curativa (…); os livros desempenham então junto dele um papel análogo ao dos psicoterapeutas junto de certos neurasténicos.”

E, de facto, assim é. Pelo menos no que me concerne, a leitura é um antídoto infalível para dissipar as nuvens negras que por vezes me escurecem o céu. Quando leio, entra em jogo a tal alteridade que falava Bloom.

Pôr-me no papel do outro autoriza-me a fugir do eu, a assumir uma irrealidade geralmente vedada da rotina, e quando assim é, fujo à ansiedade e à melancolia. Encontro o companheiro ideal: o livro. Porque, como dizia Proust: “Talvez não haja dias que tenhamos vivido tão plenamente como (…) aqueles que passamos na companhia de um livro preferido.”

[Fotografia: Baixo Alentejo, 2015]

2 Comments

  1. Lindo! E muitos livros são como ecos dos nossos pensamentos e reflexões! Aí, sentimo-nos compreendidos no mais profundo de nós mesmos!

    • Obrigado Ana. Concordo em absoluto. Ao lermos autores que escrevem sobre aquilo que de mais íntimo somos, que partilham as mesmas reflexões e problemas, sentimo-nos mais compreendidos e menos sozinhos.

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