Estou a ler a Bíblia e a surpreender-me todos os dias

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Milhares de milhões de cristãos e judeus em todo o mundo seguem os preceitos de uma religião que se baseia na Bíblia sem que nunca tenham lido um único livro da Sagrada Escritura, o que sempre me causou grande surpresa. Como pode alguém dizer-se católico (ou protestante, judeu, evangélico ou de outra fé de inspiração bíblica) sem conhecer o conteúdo das páginas que definiram a sua igreja e as suas leis morais? Lê um resumo na internet? Simplesmente confia nas regras que outros lhe dizem para praticar?

Saberão os fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana, a confissão de longe mais seguida em Portugal, que os autores da Bíblia não pedem, nas quase 800 mil palavras que a compõem, que se confessem, rezem o terço ou assistam a missas? Que esta tríade de práticas é uma criação cristã muito posterior às Sagradas Escrituras?

Saberão os católicos que a reverenciada Maria, mãe de Jesus, tem um papel diminuto na Bíblia, sendo referida em menos versículos do que centenas de outras figuras hoje quase esquecidas? Em toda a segunda metade do Novo Testamento (NT), livro que contém o grosso das instruções morais que um bom católico deve seguir, a Virgem é referida uma única vez e sem qualquer indício que exija idolatria: “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele” (Atos 1:14). Apenas isto.

“Aconteceu que, enquanto ele [Jesus] falava, uma mulher levantou a voz da multidão e lhe disse: ‘Bem-aventurados o útero que te gerou e os seios que tu mamaste’. Ele, porém, respondeu: ‘Bem-aventurados, antes pelo contrário, os que ouvem e põem em prática a palavra de Deus’” (Lucas 11:27-28). Até Jesus fala desta forma surpreendente da sua mãe num dos quatro evangelhos. Porquê então um tão fervoroso culto a Maria?

Rezar o terço implica dez Avé Marias para um Pai Nosso, ou seja, gasta-se dez vezes mais tempo a falar com a Virgem do que com o próprio Todo-Poderoso. Terá sentido?

Foi com estas e outras questões em mente que me aventurei na leitura da Bíblia, ou melhor, de uma parte dela. Não sei se algum dia poderei dizer que a li toda. Levaria meses ou mesmo anos a fazê-lo; e não sei se terei tempo ou disposição para tal. É que, composta por 27 livros, a Bíblia é mais uma biblioteca do que um livro, provavelmente a razão pela qual tantos crentes nunca a leram.

O QUE JÁ LI DA BÍBLIA

Arriscaria dizer que o “sumo” das Sagradas Escrituras concentra-se em mais ou menos um terço da Bíblia, correspondendo aos primeiros e últimos livros. Nos cinco primeiros livros, o chamado Pentateuco (Torah para os judeus), encontramos a maioria das mais famosas figuras do Antigo Testamento (AT), como Adão e Eva, Noé, Abraão, Moisés ou Jacob. Os últimos livros correspondem ao Novo Testamento e incluem os mais importantes “capítulos” para o cristianismo, como os Evangelhos e as Cartas de Paulo.

Foram estes os livros da Bíblia que li até agora, sendo que o NT estou a ler a magnífica tradução de Frederico Lourenço, uma obra que tem sido lançada a conta-gotas nos últimos anos. Cada livro é um novo prazer, mais ainda quando neles Frederico Lourenço inclui preciosas notas e comentários, muitas vezes ainda mais fascinantes do que os versículos em si.

O QUE ME TEM IMPRESSIONADO

O Novo Testamento, que reúne a vida e os ensinamentos de Jesus, assim como a narração dos primeiros passos do cristianismo, inclui livros de uma inegável beleza, com uma escrita imagética, encantadoras parábolas e uma simplicidade desarmante.

Os quatro evangelhos falam de um Jesus cuja principal mensagem é a do amor, com um apelo tocante para amarmos, inclusivamente os nossos inimigos, marcando uma viragem em relação ao vigente judaísmo. “Fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Dai e ser-vos-á dado. Perdoai e sereis perdoados. Que vos ameis uns aos outros”, pede Jesus. O pregação primordial de Cristo podia resumir-se a um benfazejo “não faças aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem a ti”.

Li os quatro evangelhos com especial deleite, mas à medida que avancei para os Atos dos Apóstolos e sobretudo para as Cartas de Paulo (uma espécie de fundador do cristianismo), conjunto de textos que contêm a maioria das leis morais que um bom católico deve respeitar, saltou-me à vista o desfasamento entre os ensinamentos de Cristo e os dos autores que o antecederam (Antigo Testamento) e que o precederam (apóstolos como Paulo e Pedro).

Eis algumas dessas discrepâncias:

1. Simbolismo ou apologia da violência?

O primeiro desfasamento com que me estou a deparar entre as palavras de Jesus e as leis morais aludidas no resto da Bíblia é a questão da violência. É verdade que Jesus revela um lado bélico na famosa cena em que, chegado ao templo de Jerusalém, chocado por ver que o espaço se transformou num cenário de comércio em vez de oração, age “fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo, espalhou as moedas pelo chão e derrubou-lhes as mesas”. Mas, excetuando esta história, no geral, Jesus é apaziguador e misericordioso.

O mesmo não se pode dizer das figuras centrais do Antigo Testamento. O episódio do templo é um conto para crianças comparado com a violência explícita do AT. É longuíssima a lista de histórias de genocídios, infanticídios, fratricídios e pura brutalidade que pululam o AT. Basta mencionar os mais conhecidos genocídios: Dilúvio, Sodoma e Gomorra, Pragas do Egipto. Depois há o livro sagrado dos Números, que contém assassínios em massa: 24000 pessoas num episódio, 250 noutro, depois mais 14700, e poderia continuar.

Estas matanças seriam, porventura, expectáveis no AT, uma vez que um dos propósitos destes livros é contar-nos a longa provação dos judeus, sucessivamente escorraçados da Terra Prometida; mas o que mais choca é o facto destes atos cruéis terem sido ordenados  por Deus, alguns por mero capricho, como em Números 16:35, em que o Senhor mata 250 judeus apenas por estes lhe terem dado incenso; ou em Números 15:35, em que um pobre desafortunado é apanhado a recolher lenha num sábado e “Então o Senhor disse a Moisés: Esse homem será morto. Toda a assembleia o apedrejará”.

Como todas as histórias, também as que constam no AT podem ser lidas sob um sentido metafórico, mas não deixa de causar estranheza tanta crueldade sobre tantos inocentes, que acabam por pagar por erros alheios ou, pior ainda, morrem por questões tão mesquinhas.

2. A mulher da Bíblia: calada, submissa, pudica

Outro aspeto que me está a surpreender pela negativa é o do papel da mulher na Bíblia. Que não haja dúvidas: tanto no Antigo como no Novo Testamento, a mulher é definitivamente inferior ao homem. O AT está recheado de referências a essa subalternidade.

Não preciso trazer à colação a “costela de Adão” ou o pecado original, recordo apenas um dos mais injustos decretos bíblicos. Definida no Livro dos Números 5:29, a chamada “Lei dos Ciúmes” implica que, em caso de desconfiança matrimonial, o marido é sempre ilibado e a mulher sempre culpabilizada: “O marido ficará isento de culpa e a mulher suportará a iniquidade”.

O NT não fica atrás do AT em matéria de subordinação da mulher. Nos Evangelhos, como em toda a Bíblia, as mulheres são sempre personagens secundárias (como já vimos com Maria), tendo pouco mais do que um estatuto de serventes, ainda para mais às suas expensas: “Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras, que os serviam [aos discípulos] a partir das suas próprias poses” (Lucas 8:3).

Mas é nos últimos livros da Bíblia, os que verdadeiramente definiram o cânone cristão, que a “porca torce o rabo” quanto à condição feminina. Infelizmente, como noutros “temas fraturantes” das Sagradas Escrituras, também este da inferioridade da mulher é inexplicavelmente exacerbado nas Cartas de Paulo, epístolas de substancial importância na definição das leis morais cristãs.

Paulo, dirigindo-se aos fiéis de Corinto, escreve “pérolas” como: “A mulher não tem autoridade sobre o próprio corpo, mas sim o marido (…) Ordeno – aliás não eu, mas o Senhor – que a mulher não seja separada do marido. E se for separada, que permaneça sem se casar”; “Que as mulheres estejam caladas nas assembleias. Pois não lhes cabe falar, mas devem ser submissas, como diz a lei. Se quiserem aprender alguma coisa, perguntem em casa aos seus maridos”; “Que as mulheres se vistam com roupa decente, com inibição e pudor, sem tranças, nem ouro nem pérolas, ou vestidos caros. (…) Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem; mas sim que se mantenha em silêncio”; “… pudicas, santas, boas executadoras do trabalho doméstico, submissas em relação aos seus maridos”.

A raiz desta iniquidade sobre a mulher remonta ao princípio dos tempos, narrado no livro do Génesis, onde se define desde logo que a mulher é inferior ao homem. Sobre isso escreve Paulo: “Adão foi o primeiro a ser formado; depois Eva. E Adão não foi enganado, mas foi a mulher que, deixando-se enganar, incorreu na transgressão”.

A velha ideia da pecado original, da culpa, sob os ombros da mulher. O que vale, Paulo garante que a mulher “todavia, será salva através da parturição de filhos – contanto que permaneçam em fé, amor e santidade com pudor”. Sobre as que não podem ter filhos nem uma palavra. As que têm a “sorte” de poderem ser salvas parindo filhos, só é pena que, precisamente por castigo divino procedente da curiosidade diante da árvore sagrada, tenham de os parir cheias de dor. Enfim, não se pode querer tudo.

Um contra-argumento a esta minha indignada exposição de injustiça poderia ser o clássico: “mas aqueles eram outros tempos, estas desigualdades eram normais, o que Paulo e os outros autores da Bíblia escreveram é apenas um reflexo da realidade da época”.

Mas é precisamente aí que reside o fundamento do meu protesto: este tipo de posição no livro sagrado do cristianismo, neste caso o papel inferior da mulher na sociedade, mas mais à frente veremos outros, não reflete a mensagem de Jesus – que tirando algumas raras exceções traduz-se em palavras de bondade e amor – antes as de cartas escritas por supostos assistentes, ditadas por supostos seguidores de Cristo, como Paulo ou Pedro. Porque presta o cristianismo atenção às opiniões de figuras menores em vez de se centrar na mensagem de Cristo?

3. Jesus condenou a homossexualidade?

Outro exemplo deste desencontro entre a palavra de Cristo e as leis morais cristãs é o repúdio à homossexualidade. O AT é tristemente claro quanto a esta matéria: “Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão de ser executados, pois merecem a morte” (Levítico 20:13). Escrito desta forma tão explícita, é difícil ao acérrimo judeu seguidor da Torah escapar a esta realidade.

E o cristão? Há esperança: não existe qualquer reprovação à homossexualidade por parte de Jesus. Bom, assim sendo, a Igreja não tem motivos para… Como? Paulo outra vez? Decreta ele em Carta aos Coríntios 6:9: “Nem efeminados, nem homens que se deitam com homens (…) herdarão o reino de Deus”. E é assim, uma vez mais, que figuras que não Cristo influenciam sobremaneira as leis cristãs.

Os Evangelhos descrevem um Jesus indulgente com todo o tipo de pessoas, aceitando soldados romanos, samaritanos (repudiados na altura), leprosos, uma mulher adúltera e até prostitutas. Quem sabe não fosse tolerante também para com um homossexual se o encontrasse?

O facto é que não há nenhum versículo em que jesus condene a prática da homossexualidade, para depois vir Paulo demonizar as relações entre pessoas do mesmo sexo e definir a posição da Igreja até hoje. Porque não se quedou o cristianismo com a palavra (ou silêncio) do seu Senhor sobre a homossexualidade e optou por dar atenção a uma figura que não Cristo?

4. No princípio era o Verbo… e a escravatura

Os autores da Bíblia até podiam surpreender-me e condenar a escravatura, mas talvez seja pedir de mais. Podiam pelo menos fingir que não existia. Mas também aqui o padrão é idêntico à das anteriores questões: a pratica é amplamente referida no AT, ignorada por Jesus, e depois, adivinharam, defendida por Paulo.

É extraordinário como a escravatura está presente logo nas primeiras páginas da Sagrada Escritura. Após a criação do mundo e da humanidade – “Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher” (Génesis 1:27) –, uns meros capítulos depois, em Génesis 12:5, lê-se: “[Abraão] tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho do seu irmão, assim como todos os bens que possuíam e os escravos que tinha adquirido”. Ainda a humanidade estava a dar os primeiros passos e já se dividia entre donos e escravos, uma divisão que se prolonga em todo o AT.

Chegamos ao NT, e Jesus não se desvia da sua pregação do amor e fraternidade. Não há defesa da escravatura, como era aliás de esperar. Até que lá vem o parecer de Paulo, que é novamente uma deceção: “Que os escravos sejam submissos aos seus senhores em tudo. Que procurem agradar-lhes, que não os contradigam, que não os prejudiquem; mas que mostrem toda a melhor fidelidade, para que adornem a doutrina do nosso Salvador, Deus, em todas as coisas” (Carta a Tito 2:9-10).

Outro apóstolo, Pedro, na sua primeira epístola (1:18), soma-lhe uma “retorcida” adenda: “Os escravos domésticos que se submetam com todo o temor aos amos, não só aos bons e mansos mas também aos retorcidos”.

UMA BÍBLIA, DOIS CAMINHOS

Chegado aqui, e com apenas um terço da Bíblia lido, não consigo deixar de pensar que das duas uma: ou a Bíblia é um relato de milhares de histórias escritas por homens e apenas homens ou é a Sagrada Escritura, reflexo da palavra divina.

Se for apenas um conjunto de histórias, é natural que reflita a realidade da altura – que incluía escravatura, subordinação da mulher, pena capital para homossexuais e violência generalizada – e, por isso, deve ser lida como qualquer outra obra de literatura repleta de crueldade, como os precedentes clássicos de Homero.

Se for lida como uma Escritura Sagrada, se nos transmite a palavra de Deus “sem erro” (segundo a Constituição Dogmática do 2º Concílio do Vaticano) então, como diz o tradutor Frederico Lourenço, “não nos compete lê-la como uma ementa de coisas que escolho e rejeito à minha vontade”.

Não podemos considerar um texto sagrado e dizermo-nos de uma religião, retirando desse texto apenas as partes que nos interessam e ignorando outras que não queremos ver.

Se assinamos um documento temos de concordar com tudo o que nele consta.

Sou agnóstico. Leio a Bíblia como o prodigioso texto literário que é, provavelmente o mais fascinante e importante conjunto de livros de sempre e para sempre. Sinto um imenso prazer quando mergulho nas suas deslumbrantes páginas, e aguardo, ansioso, pelas restantes traduções de Frederico Lourenço.

A leitura da Bíblia, pela sua dimensão, pode não ser obrigatória para todos, mas devia ser para todos os que fazem dela um manual de moral e costumes. Só assim podemos refletir sobre o impacto que a Bíblia teve, e continua a ter, na nossa cultura.

Não podemos acreditar numa história sem a ler. Não podemos crer na palavra divina sem a conhecer.

[Nota: não sou um exegeta de Bíblia. Certamente me faltaram aqui elementos preciosos para a compreensão dos textos bíblicos e não foi minha intenção fazer uma análise minuciosa dos temas apresentados. Escrevi apenas o que espontaneamente me foi passando pela cabeça, sem pretensões de escrever um ensaio sobre assunto algum.]

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