As minhas leituras durante o confinamento (livros de ficção)

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Depois de ter aqui publicado as minhas leituras de não-ficção durante o confinamento, deixo agora uma lista dos livros de ficção que li (dez romances e um de poesia).

Incluí neste post duas novidades, de modo a tornar a listagem mais opinativa: uma pontuação por estrelas (de um a cinco) e uma referência a se fiquei ou não com vontade de o reler. O primeiro método classificativo é o da praxe; o segundo corresponde ao um critério que tenho para avaliar uma obra de ficção: a vontade de a reler. Quando acabo um livro e sinto um apelo de o voltar a ler, às vezes logo de seguida, tenho a certeza de que gostei dele e que, no meu entender, é um bom livro. Se fechar a última página e ficar com a certeza de que nunca mais pegarei nele, percebo que não gostei do livro.

A Insustentável Leveza do Ser

Milan Kundera
Editora BIS

Comecei o confinamento com um dos mais aclamados romances do século XX e posso dizer que este livro passou diretamente para a lista dos meus preferidos de sempre. A história gira à volta do triângulo amoroso entre Tomas, Tereza e Sabine, mas o enredo nem é o mais atrativo aqui. Os livros de Kundera são como ensaios em forma de romance. Na Insustentável Leveza do Ser cabem temas como o corpo, a religião, o amor, a liberdade, a vergonha, a compaixão, a fraqueza e a força.

O melhor deste livro está no desfile das ideias do escritor checo, não na narrativa ou nas descrições. Um exemplo: sobre as personagens são dadas apenas duas ou três indicações gerais (alta, morena, 33 anos); o resto é deixado, e bem, à nossa imaginação. Para Kundera, o instrumento por excelência como meio de apreender as ideias de um escritor é a metáfora, que, segundo ele, é essencial para captar “a inapreensível essência das coisas, das situações, das personagens”.

Muito haveria a dizer sobre o magnum opus, a obra-prima, do checo, mas deixo comentários adicionais para outro post a publicar em breve.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★★
A reler: Sim
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A Imortalidade

Milan Kundera
Círculo de Leitores (esgotado)

Ainda inebriado pela leitura da Insustentável Leveza do Ser, assim que terminei a mais conhecida obra de Kundera, atirei-me a outro livro do checo: A Imortalidade. Neste livro, Kundera usa as mesmas técnicas narrativas, as mesmas personagens complexas, o mesmo triângulo amoroso e os mesmos temas, aqui com um foco maior no corpo, na vergonha e, claro, na mortalidade.

Para Kundera, o romance é a forma de um autor, através de personagens, examinar temas existenciais. Essa premissa vê-se tanto na ILS como neste A Imortalidade. Um pormenor curioso deste livro é o facto de Kundera assumir-se como narrador. E como são deliciosos os diálogos do autor com as personagens, que são tratadas não como criações suas, mas como pessoas “reais” que finge não conhecer e com quem conversa.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★
A reler: Provavelmente


Fahrenheit 451

Ray Brabury
Saída de Emergência (lido: Livros do Brasil)

Durante o confinamento quis ler uma distopia. Tinha na estante o 1984, o Admirável Mundo Novo e o Fahrenheit 451. Como lera o primeiro na faculdade e a sinopse do segundo não me cativou, optei pelo livro de Ray Bradbury.

No mundo de Fahrenheit 451 os livros são rejeitados e queimados, e a sociedade alienada e estupidificada: “encham-nos com informações inofensivas, incombustíveis, que eles se sintam a rebentar de ‘factos’, informados acerca de tudo. (…) Serão felizes, porque os conhecimentos deste género são imutáveis. Não os levam para terrenos escorregadios como a filosofia ou a sociologia, em que tenham de confrontar a sua experiência”, diz a determinada altura o vilão. Mas o protagonista acaba por ser “contaminado” pelo poder dos livros e a história desenrola-se a partir daí.

Apesar da premissa entusiasmante, senti um certo desencanto com o livro. Ainda impregnado da riqueza imagética e de conteúdo de Kundera, foi difícil não o achar demasiado simplista e despido de carisma. Contrariamente às pérolas de Kundera, dificilmente Fahrenheit 451 terá direito a uma releitura.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★
A reler: Dificilmente
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As Intermitências da Morte

José Saramago
Caminho

Recomendado por muita gente, este livro não defraudou expectativas e sobe ao meu pódio dos melhores de Saramago, juntando-se a Ensaio Sobre a Cegueira e Caim. A escrita é Saramago no seu melhor. Não vale a pena adjetivá-la, é por demais conhecida de todos (assim espero).

O enredo é fascinante e revelado logo na primeira linha do romance: “No dia seguinte ninguém morreu”. Como fez com os seus Ensaios, também aqui Saramago imagina como reagiríamos perante um circunstância inimaginável: não morrermos, neste caso.

E é num caldeirão de episódios mais ou menos rocambolescos que o ser humano revela uma das suas mais vincadas características: a desumanidade. Assim é na primeira parte. Na segunda há uma reviravolta épica, e a vontade é muita para aqui a revelar, mas controlo-me e deixo-vos a descoberta desse prazer.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★★
A reler: Sim
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A Invenção de Morel

Adolfo Bioy Casares
Antígona

Um fugitivo chega a uma ilha remota que julga deserta. Um dia descobre que não está sozinho. Entre essas pessoas está Faustine, uma mulher que contempla o pôr do sol todas as tardes, e Morel, uma personagem enigmática que aspira a altos voos metafísicos.

O venerado José Luís Borges, conterrâneo de Adolfo Bioy Casares, disse sobre este livro publicado em 1940: “Não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-lo como perfeito.” Não chegaria a tanto, mas de facto A Invenção de Morel tem todos os ingredientes de um bom livro: escrita prodigiosa, personagens bem trabalhadas, um fio condutor transversal da primeira à última página, emprego certeiro de recursos estilísticos e uma mensagem subjacente no seu todo. Não posso deixar de destacar a edição que li, da Antígona.

Como é apanágio da editora, este volume é lindíssimo e reflete uma evidente preocupação em fazer chegar aos seus leitores livros de qualidade, nobre intenção que infelizmente não podemos ver em todas as editoras da nossa praça.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★
A reler: Sim
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A Peste, A Queda e O Estrangeiro

Albert Camus
Livros do Brasil

Não resisti ao livro mais falado nas primeiras semanas da pandemia: A Peste, escrito por Albert Camus. Publicado em 1947, a peste deste livro será certamente uma metáfora ao mal que corrói a sociedade. No caso da peste deste livro, os especialistas dizem que se refere ao nazismo, mas a narrativa está construída de tal forma que a peste se pode aplicar a todo o tipo de problemas e em qualquer momento da História.

Embalado pela soberba escrita de Camus, li logo de seguida outras duas obras suas, mais pequenas mas igualmente célebres: A Queda e o Estrangeiro. A primeira é uma conversa de 80 páginas entre um advogado e um desconhecido que encontra na rua. Brilhante a forma como Camus, recorrendo apenas a um simples diálogo, coloca em evidência toda a ambiguidade do ser humano.

No mesmo sentido segue O Estrangeiro, outra análise introspetiva da essência humana, aqui com mais enfoque no tema definidor da obra de Camus, o Absurdismo. O Estrangeiro foi dos três o que mais gostei e é quase certo que merecerá uma releitura a médio prazo.

A Peste
Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★
A reler: Provavelmente
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A Queda
Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★
A reler: Provavelmente
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O Estrangeiro
Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★
A reler: Sim
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Vamos comprar um poeta

Afonso Cruz
Caminho

Gosto de alternar livros de leitura pesada e demorada com outros menos exigentes e mais leves. Foi assim com Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz, um livro destinado a um público mais jovem, mas que, como quase todas as obras assim classificadas, é de leitura aconselhada para qualquer adulto.

A trama é simples: numa sociedade imaginada (é mesmo?), as personagens só veem números e economia, abdicando da cultura e da criatividade. Um dia, a protagonista (e narradora), pede ao pai lhe que compre um poeta e aprende uma lição que facilmente adivinhamos, mas que está contada com a habitual escrita de Afonso Cruz, simples mas rica, salpicada com um sem-fim de bonitas metáforas.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★
A reler: Provavelmente
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A Espuma dos Dias

Boris Vian
Frenesi (lido: Relógio d’Água)

A prova de que as obra de culto nem sempre são para todos os gostos. Terminei A Espuma dos Dias extenuado. Gosto de uma escrita imagética e recheada de recursos estilísticos como metáforas, personificações e ambientações reflexas, mas encontrei-os em excesso neste livro de Boris Vian. Aqui tudo é metafórico e surrealista. Demasiado surrealista. Sabemos como nos inclinamos para um tipo de livros em determinadas fases e para outro totalmente distinto noutra período da vida. Talvez tenha lido a Espuma dos Dias fora de tempo.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★
A reler: Não
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Nómada

João Luís Barreto Guimarães
Quetzal

A poesia é o parente pobre da minha estante. Tenho a certeza de que isso acabará por mudar, mas, para já, as obra poéticas ficam quase sempre adiadas para “um dia”. Nómada, de João Luís Barreto Guimarães, foi uma exceção.

Quem me levou a este pequeníssimo livro foi Sandra Barão Nobre, mais conhecida como A Biblioterapeuta, que o recomendou no seu canal de Youtube. No vídeo, Sandra declama um poema chamado “A hipótese do cinzento”, que gostei de imediato pela pertinência do tema, que tão bem encaixa numa sociedade instada a pensar “preto” ou “branco”, nunca “cinzento”.

Com uma leitura apressada, o livro pode ler-se numa hora, mas sugiro o oposto: um poema por dia, lido compenetradamente, palavra a palavra, tentando interpretar cada pensamento do poeta.

Avaliação do Filho de Mil Histórias: ★★★★
A reler: Sim
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