O redemoinho da ansiedade

Ler

Como uma aranha apavorada vogando numa banheira com água esvaziando-se, tento escapar ao redemoinho, mas a força da sua sucção vai-me puxando para o abismo. Procuro manter-me na águas calmas, mas às vezes o buraco negro no final do redemoinho toma-se de um tal poder de atração que me é impossível fugir ao seu campo gravitacional. Quando se olha muito tempo para o abismo, o mais certo é o abismo devolver esse olhar para dentro de nós, alertava Nietzsche. Depois de entrar no turbilhão do redemoinho, dificilmente se escapa ao seu voraz buraco negro.

Esse redemoinho tem um nome: ansiedade.

Os círculos concêntricos mais afastados do redemoinho representam o stress. A furiosa espiral que rodeia o buraco negro do redemoinho corresponde a um estado mais intenso: a contínua sensação de medo. O buraco negro simboliza o ataque de pânico. Três componentes do redemoinho, três níveis na escala da ansiedade: stress, medo e pânico.

O stress faz parte da essência humana, de todos os animais. Vivemos numa linha de fronteira, aceitando o stress como parte de nós, mas repelindo sempre que possível os seus indesejáveis sintomas, que incluem respiração acelerada, sensação de batimento cardíaco irregular, suores ou irritabilidade.

Apesar de desconfortável, o stress, em doses controladas, é benéfico, pois mantém-nos despertos, permitindo-nos ultrapassar obstáculos e mudar coisas que precisam de ser mudadas. Muitas das coisas que fiz na vida não seriam possíveis sem o stress. O permanente estado de insatisfação associado ao stress faz-me levantar da cadeira e percorrer caminhos diferentes daqueles que tinha imaginado, perseguir novos desafios, escrever este texto.

Felizmente muito mais rara, a sensação contínua de medo é um nível de desconforto emocional mais intenso e já entra na esfera da ansiedade excessiva e indesejada, quando não se consegue evitar o poder de atração do redemoinho da ansiedade. Este estado pode durar dias ou semanas e as suas manifestações incluem tonturas, sensação de aperto no peito, hiperventilação, pensamentos intrusivos, desejo urgente de fuga e sentimentos angustiantes.

O estado de medo permanente é semelhante àquela sensação de intenso e descontrolado nervosismo que sentimos antes de fazermos uma apresentação em público, mas, em vez de passar em minutos, prolonga-se por dias inteiros. Não é, portanto, um estado que se coadune com as obrigações do dia a dia – trabalhar, ir às compras, estar entre amigos ou simplesmente ler um livro –, antes uma inquietação que bloqueia.

Este nível dois na ansiedade é alimentado por medos aparentemente inofensivos, mas que, prolongados no tempo, são combustível para a ansiedade. Num exercício rápido, se tivesse de elencar algumas dos meus medos, dividi-los-ia em dois grupos: os medos sobre os quais posso fazer alguma coisa e os medos sobre os quais não posso fazer nada.

Nos medos sobre os quais posso fazer alguma coisa incluo o medo de chegar ao final do dia sem ter nada para contar, ou seja, não ter feito absolutamente nada distinto do que fiz no dia anterior; o medo de seguir um caminho profissional que me possa arrepender; o medo de um dia não ter dinheiro para garantir a felicidade dos que me são próximos; o medo de não corresponder às expectativas; o medo da solidão; e o medo de não deixar um legado, por mínimo que seja, neste mundo, de não ser lembrado.

Nos medos sobre os quais não posso fazer nada englobo preocupações como o medo de ter um acidente, o medo de ficar doente, o medo de que os outros fiquem doentes, o medo de envelhecer, o medo de que os outros morram, o medo de que eu morra ou o medo da ideia de vazio após a morte.

É obviamente mais fácil lutar contra os medos da primeira categoria, uma vez que a maioria não passam de receios infundados e inseguranças facilmente ultrapassáveis. Sobre estes medos, Séneca dizia que mantemos vícios de infância e mesmo de recém-nascidos, “uma vez que as crianças temem coisas sem importância e os recém-nascidos coisas inexistentes”. Nós, estupidamente, tememos umas e outras.

A segunda categoria, a dos medos sobre os quais não posso fazer nada – o medo do futuro, ou cronofobia -, é mais difícil de combater e representa a grande fatia do bolo dos meus medos, e certamente representará a de alguns de vós.

Em momentos particularmente complicados, a exposição contínua ao stress e à sensação contínua de medo, leva ao terceiro e último nível de ansiedade: o ataque de pânico. Felizmente, passei apenas cinco ou seis vezes pela tormenta do ataque de pânico, há vários anos, mas, levadas ao limite, muitas pessoas com ataques frequentes (síndrome de pânico generalizado) têm a vida condicionada, evitando locais em que não tenham controlo para escaparem quando entenderem, recusando encontros sociais e, em caso extremos, deixando mesmo de sair de casa.

A reação diante um ataque de pânico, uma ferramenta que o nosso corpo dispõe desde que existimos, é a da fuga imediata, o que é útil quando, digamos, somos perseguidos por um urso. Esse terror pode salvar-nos a vida, mas quando se está entre amigos num jantar ou confinado num carro numa viagem de cinco horas, o pânico da fuga não só é indesejado, como embaraçoso.

É que um ataque de pânico não surge quando estamos em perigo, desponta de forma aleatória, sem obedecer à lógica. Tanto lhe faz onde estamos ou com quem estamos. Daí nasce outro medo: o medo do medo – o medo de se ter um ataque de pânico onde não é suposto, o medo de que os outros se apercebam do que se está a passar, o medo da humilhação. Estes receios podem levar a um perigoso círculo vicioso, em que o medo do medo gera um receio que não tem razão de ser mas que é incontrolável.

Os poucos ataques de pânico que tive aconteceram há vários anos, num período em que demasiada coisa acontecia na minha vida. Não sabia pelo que estava a passar, daí a importância de lermos sobre o assunto: para, no caso de sermos surpreendidos por um ataque, sabermos do que se trata e, com essa informação, sabermos ultrapassá-lo.

É difícil descrever de forma meticulosa um ataque de pânico, mas imagine-se aquela sensação de susto, por exemplo, quando quase se tem um acidente de carro, ou quando se tropeça e se fica perto de cair duma falésia, aquele instante em que o coração parece parar, os sentidos ficam bloqueados, o corpo ingovernável. Um ataque de pânico é esse susto prolongado por vários minutos.

Durante aqueles ataques deixava de ser eu, passava a ser manipulado por uma entidade externa que controla os fios da marioneta. Era eu, mas não era bem eu. A voz que vive na minha cabeça assumia os comandos sem pedir autorização, gerando pensamentos intrusivos: “não te vais conseguir controlar, vais ter de fugir, mas não tens para onde fugir, é desta que vais parar ao hospital, não vês que já nem consegues respirar, que vergonha que vais passar, não, não vai durar só uns minutos, vai durar horas, o meu peito está tão apertado que dói, agora é que é, vou ter um ataque cardíaco, vais morrer, sim, vais morrer.”

A minha mente lutava entre o meu eu, que estava consciente que ninguém morre de um ataque de pânico, e o meu outro eu, aterrado, convicto que daquela vez era a sério, que tinha os dias contados. Infelizmente, o terror não obedece à razão.

É escusado dizer a quem esteja a ter um ataque de pânico para se acalmar. Fazê-lo é como pedir a alguém que acabou de saber da morte de um familiar ou de um amigo próximo para não ficar triste. As coisas simplesmente não funcionam assim.

O único capaz de o derrotar era eu: “Pânico, sua besta, evitas de estar com ideias, já li muito sobre ti, conheço-te de ginjeira, és suficientemente estudado pela ciência, sei que só vais durar uns minutos, sei que vais definhar, só preciso de me deitar, sofrer o que tenho a sofrer e esperar.”

O pânico vinha por ondas. Entre elas, cada golfada de ar era uma dádiva, uma esperança de que afinal não ia ser assim tão grave, que se calhar até podia escapar daquilo vivo, mas de repente era novamente sugado para a espiral dos pensamentos intrusivos – descontrolo, falta de ar, peito comprimido, terror da morte. Até que – alívio – o redemoinho acalmava. Geralmente um ataque de pânico dura meia hora. No final, sentia-me simultaneamente exausto, aliviado e receoso de novas ondas.

Felizmente, estou há anos afastado do buraco-negro, longe da sensação contínua de medo ou dos ataques de pânico, mas, bem escondido, em parte incerta no meu cérebro, vive um latente medo do medo, um vulcão adormecido que, um dia, sem aviso, pode voltar a explodir, gerando uma nuvem piroclástica de pânico e uma enxurrada lávica de pensamentos intrusivos. Espero que esse dia nunca volte, que o vulcão tenha descido de categoria, de adormecido para extinto.

Se decidi escrever sobre esta experiência é porque acredito no poder dos números. Quanto mais pessoas falarem abertamente sobre as suas inquietações, mais se sentirão aceites, pois perceberão que são muito mais comuns do que imaginam.

“Quando tomo consciência de que sou estúpido, deixo logo de ser estúpido”, dizia Sartre. Da mesma forma, quando tomamos consciência da nossa ansiedade, menos ansiosos ficamos, daí a importância da exteriorização, neste caso através de uma arma poderosíssima: a escrita.

Ao expormos as nossas fragilidades através da escrita sentimos um alívio que nos tira um peso das costas, um exercício de autoaceitação que nenhuma outra arte consegue rivalizar. Dar nomes às coisas, descrever o inimigo, permite-nos conhecê-lo melhor e, com isso, ganhamos outras armas para o vencer, para vencer a ansiedade.

Escrever é aceitar que a vida tem um negrume com o qual é preciso conviver. A escrita permite-nos espreitar esse negrume e, com isso, trazer à superfície os nossos fantasmas mais escondidos, conduzindo-os para a luz do dia, para que possamos entender um pouco melhor quem somos.

Submit a comment

O seu endereço de email não será publicado.